sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Minhas humildes desculpas

Acho que chegou a hora de ir. Não pude comprar remédio tarja preta, me enforcar ou muito menos por grelhas no banheiro. Acredito que eu não vá sentir nenhuma dor enquanto isso acontece... (eu espero). Passei quase 3 meses planejando isso. Era algo que não saia da minha cabeça, pra falar a verdade.

Aqui vai algumas coisas que vocês, pai e mãe, provavelmente não sabiam, pois ''adolescentes habitam dois mundos – mas os pais só os alcançam em um'': minha infância foi secretamente conturbada. Quando a gente viajava pra Fortaleza, eu sempre ficava sozinha com o Rafael, na maioria das vezes. Graças a isso, aconteceram coisas doentias (isso foi dos 7 aos 9 anos, mais ou menos). Ele abusava de mim. Não a ponto de ocorrer o ato, mas ele tocava no meu corpo. Sabe o quanto é vergonhoso quando me perguntam quem foi a primeira pessoa que eu beijei? Foi ele.
Mãe, lembra no dia que fomos visitar a avó Maria na casa dela e eu quis te contar algo? Era isso. Mas eu temia por vocês e voltei atrás. Depois, aos 14, meu ''ex amigo'' também tentou abusar de mim, mas é algo que eu não quero entrar em muitos detalhes. Nunca tive coragem de contar isso pra vocês, mas acho que essa é a hora.
Outra coisa que me traumatizou muito foi o fato de eu ter sido ''maltratada'' minha vida toda. Eu sempre pedi apoio e carinho de vocês e recebia um ''se vira'', ou era ignorada. Vocês não sabem o quanto isso dói. Amo vocês, mas isso é inaceitável. Quando eu tentava me comunicar, simplesmente saiam de perto de mim ou mandavam me calar. Eu podia falar bobagem, mas tudo que eu queria era ouvir um ''te amo, filha'' sem precisar suplicar por isso. Passei 15 anos presa a esse pequeno cubículo que vocês chamam de quarto (mas eu chamo de meu mundo), porque me sinto muito triste e sozinha. Me apeguei a esses perfis falsos e pessoas ''felizes'' da Internet porque tenho dificuldade de me relacionar aqui fora, e pra falar a verdade eles são melhores que os ''amigos'' da vida real.

Em 2012, quando eu conheci o Alexandre, foi o melhor ano da minha vida. Eu descobri o que era amor. Foi bem legal no começo. Mas estraguei tudo. Comecei a ter umas crises de personalidade. Eu maltratava ele pra caramba, fazia ele chorar e tudo mais. Mas era algo incontrolavelmente automático. Quando eu percebia, já tinha feito. Isso afundou meu relacionamento. E quando o namoro acabou, passei 2 semanas chorando todos os dias. Eu pensei que fosse morrer de tanta tristeza. Acredito que essas coisas que aconteceram comigo na infância, e o fato de eu ter me ''fechado pro mundo'' formaram a minha conturbada personalidade, que uma hora é doce e outra explosiva. Tento manter todos longe de mim. Eu não consigo parar, ou mudar. Pode ser ''coisa de adolescente'', mas é insuportável. Eu não aguento mais.
Enfim, eu não culpo ninguém por ser quem sou, além de mim, por não saber lidar com as dificuldades da vida. Só apontei alguns fatores que influenciaram. Não consigo enxergar meu futuro. Parece que tem uma névoa negra que cobre minha visão quando tento imaginar. Me sinto perturbada, como se não pertencesse a esse mundo, como se ninguém gostasse de mim de verdade. Odeio meu corpo, meu jeito, meus pensamentos. Odeio olhar pras pessoas e ver que elas são felizes e têm amigos. Odeio o fato de as vezes soar que sou diferente de todos vocês. Eu odeio existir. Eu queria desaparecer, evaporar. Meus pensamentos sobrecarregam minha mente. As vezes penso que vou enlouquecer. Fazem noites que não consigo dormir direito e choro pelos cantos. Sinto que mudei pra algo pior que eu já era.
Não existe motivo certo pro que estou fazendo. Só redigi algumas coisas que possam levar vocês a entender a minha morte tão prematura. Espero que cuidem do meu irmão melhor que cuidaram de mim. Me perdoem por fazer isso... mas, antes que percebam, eu já estava morta por dentro. Mais uma vez, ninguém tem culpa disso. Não fui influenciada. Foi apenas uma escolha minha. Talvez esteja sendo egoísta em não pensar na dor das pessoas ao meu redor, mas é hora de pensar na minha dor.

Faço um último pedido. Talvez seja difícil realizá-lo, mas tentem. Ouçam as 7 músicas que tem nesse link. Todas elas expressam o que sinto, por isso fiz questão de traduzi-las. Obrigada por dedicarem o tempo que puderam a mim, por me darem do bom e do melhor materialmente. Mas a dor de dentro nenhum presente caro supre ou substitui. 
 E como diria Yoñlu: “Se conseguirem enxergar além da ótica da paternidade, verão que nada de especial aconteceu no dia de hoje. O mundo continua igual. Espero que não tenha ficado nada pendente”. Deixo aqui meus 5 covers ruins pra ouvirem quando sentirem falta de mim (a qualidade é ruim porque gravei com o microfone do Notebook). E é com um pouco de tristeza que me despeço de vocês. Eu os amo muito.







 
14/08 - 19:30
Update: 28/08 - 23:17

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Desabafo

(Hoje fazem 6 dias que tentei me matar pela segunda vez. Juro que tentei com todas as forças, mas não consegui. Fiquei chateada e irritada. Apertei aquele cinto o mais forte que pude e nada... Acho que devo ter passado umas 2 horas com aquilo no pescoço e a sacola na cabeça. De vez enquanto eu apagava e depois voltava.
Há 2-4 dias atrás, comprei num comércio perto do trabalho dos meus pais um veneno, depois da escola. Não sei qual a marca, pois veio num depósito pequeno. Tem a cor meio roxo/cinza e veio bastante, até. Custou 6,00. Eu ia comprar o caro (7,50), mas sou impaciente e comprei esse mesmo.
Acho que vou tentar antes de dia 31, pois é uma Segunda-feira, então provavelmente eu vá ter que ir pra aula e sei que veneno estraga o estômago da gente. Talvez eu o beba de sábado pra domingo, aí terei um dia inteiro pra ficar em cama, caso eu passe mal. Então... vou ter que suportar uma provável dor insuportável. Mas, se eu conseguir o que quero, não há problema. 
Ainda não sei como vou digerir isso (na comida, bebida etc), mas acho que vou colocar em alguma água ou suco.)

Terça-feira o pessoal da minha sala foi chamado pra assistir um filme, e quando tocou o recreio todos correram pros grupinhos de amigos. Fiquei sozinha, andando de um lado pro outro. Me senti exposta àquela gente feliz, queria me esconder, me isolar, sumir dali. Parecia que eu era a única pessoa que não tinha amigos, ou com quem conversar. Até me arrependi de não ter pego meu fone e meu celular. 
Sabe... era como se eu não pertencesse aquilo. Como se eu não fizesse parte daquelas pessoas, ou não me encaixasse. Parecia que eu era a única pessoa infeliz, diferente. Fiquei muito mal, até bateu uma vontade de chorar. Isso nunca havia acontecido comigo, mas olhar ao meu redor me fez enxergar que realmente sou solitária, em todos os sentidos. Falei com minha mãe quando ela chegou do trabalho e ela me disse que a cada dia eu me isolava mais, que eu precisava me tratar e tal. Mas eu não quero isso. Não posso. Sou fraca. Não consigo contar das coisas que sinto sem me acabar em prantos...
Está mais e mais perto. E eu penso mais e mais nisso. Queria que desse certo, sabe? Existem mais motivos pra ir do que ficar. Talvez eu realmente precise de alguém, um refúgio, um cúmplice. Mas é assim mesmo. No final sempre ficamos sozinhos. Por mais que soframos várias vezes, nunca aprendemos a nos acostumar com a dor. Ela sempre nos arrasa de algum jeito. 
Enfim, postei hoje mais pra atualizar o blog e explicar porque ainda tô viva. Talvez antes de tentar suicídio pela terceira vez, eu poste algo. Até lá. Tô ansiosa. 

20/08 - 20:55 
Update: 28/08 - 22:52

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sou feito pedra

É legal quando você diz que tá mal, ou tá doente. É legal ver a reação das pessoas a isso. Elas falam ''melhoras'' e até demonstram interesse. Mas, será que elas se importam mesmo? É mais por educação ou algo automático da gente.
Ainda mantenho meu pensamento de suicídio. Na verdade, quanto mais penso nisso, mais vontade tenho. Acho que tenho uma doença, um transtorno, ou é algo da adolescência mesmo... as vezes não consigo me importar com o que as pessoas sentem. Não consigo sentir nada. É como se houvesse um buraco na minha ''parte sentimental'' do cérebro. E é esse um dos motivos que tenho pra fazer tal ato. Algumas pessoas podem pensar ''mas deve ser bom não poder sentir nada''. Aí que tá a coisa: em alguns momentos pode até ser algo bom, mas quando isso passa a afastar as pessoas que você ama de ti, é muito ruim. E o pior é que essa ''rebeldia toda'' vem sem avisar, e eu nem percebo. 


13/08 - 21:12
Update: 28/08 - 22:37

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Minhas músicas preferidas do Yõnlu e suas traduções

Desde dia 05/08 (anteriormente também), venho ouvindo quase sem parar as músicas do Yoñlu. O cara foi um puta gênio e era lindo. Tava a frente da idade dele. Ouvi dias atrás um dos dois álbuns dele (provavelmente escute o outro também) e tive a certeza de que ele é sim um excelente cantor. Inclusive estou o ouvindo agora...
Pô, sabe quando você acha uma música que traduz tudo que você sente? Então... eu achei um CANTOR. Nem lembro quem me apresentou ele, mas eu agradeço demaisssssss essa pessoa, mentalmente kkk.
Enfim, eu ando muito mal esses dias. Muito mesmo. Desde que meu namoro acabou sinto como se algo tivesse morrido dentro de mim. Acho que a esperança, a partícula de felicidade que eu tinha, sei lá. Mas esse é só UM dos vários outros motivos que eu tenho pra ficar assim... por isso me agarro tanto a essas letras...
Quando penso no Vinícius (Yoñlu), me bate uma tristeza tremenda. As vezes até choro. Parece que de algum modo eu me sinto ligada com ele, com sua voz, cada palavra, cada suspiro. Sinto como se o conhecesse. Parece até que a dor dele se torna a minha.
Virei fã mesmo, idolatro mesmo, e que se dane. Estou disponibilizando as traduções (algumas modificadas pelo meu entendimento, porque Google Tradutor e esses outros sites de bosta não sabem traduzir as coisas direito) e as músicas pra vocês ouvirem. Infelizmente esse foi o único método pra que vocês parassem por um minuto e ''me'' entendessem. Pena que foi tarde demais.
Enfim, seguem as letras na ordem da minha playlist: 



Mecha-Donald Duck (Pato Donald Mecânico)
O relógio deu dois
Polegares para cima
Com excelente coerência
(Dang)

Dora foi uma aprendiz
Uma garota neurótica
Mas eu a amava
E eu vou fazer amor com você
Como um pato Donald mecânico

Nosso Waterloo erótico
Foi um debate sobre uma peça
Por Clyde Fitch
E em Los Angeles você exagerou
Sobre a continuidade (e eu fiquei irritado) 
Mas eu vou fazer amor com você 
Como um pato Donald mecânico


Humiliation (Humilhação)
Por que sempre tem que terminar em humilhação para mim?
Por que sempre tem que terminar em humilhação para mim?
Eu irei te contar porque
Eu quero morrer

Eu irei te contar porque
Eu estou apaixonado por uma menina, eu estou
Que é menor, mas mais forte e mais corajosa do que eu seria
Por que sempre tem que terminar em humilhação para mim?
Por que sempre tem que terminar em humilhação para mim?

Eu irei te contar porque
Eu quero morrer
Eu irei te contar porque
 
Ele vem radiante 
Mas é hora de encolher
E ser menor do que um grão de sal no mar
É tudo que eu sempre serei
Sempre serei  


  
Estrela, estrela (cover de Vitor Ramil)
Estrela, estrela como ser assim?
Tão só, tão só e nunca sofrer
Brilhar, brilhar quase sem querer
Deixar, deixar ser o que se é

No corpo nu da constelação
Estais, estais em uma das mãos
E vais e vens como um lampião
Ao vento frio de um lugar qualquer

É bom saber que és partes de mim
Assim como és parte das manhãs
Melhor, melhor é poder gozar
Da paz, da paz que trazes aqui

Eu canto, eu canto por poder te ver
No céu, no céu como um balão
Eu canto e sei, que também me vês
Aqui, aqui com esta canção...
 




Ricky
Eu estava com medo de ser eu mesmo
Seja qualquer coisa que você queira ser
Eu não culpo a minha semana
Pela minha incapacidade de falar   
Claramente sobre coisas que eu disse antes
E se é a luz da noite que cai sobre mim
E se é a vida que resolve 
Onde quer que você esteja, em um labirinto ou vivendo uma mentira
Em qualquer lugar que você estiver, você ainda pode mudar de rumo
Toda vez que não há chão abaixo de você, você está no céu
Toda vez que você está com medo, eu digo que vai ficar tudo bem
Eu era uma chama na noite 
Eu ouvi o que eu queria ouvir
E no momento em que você desapareceu
Eu não aguentei mais 
Porque eu me tornei um só como a noite
E se é real, nada disso existe 
Há ainda muito o que se aprender
E você pode ser outro alguém além de quem você é


I Know What It's Like (Eu Sei Como É)
Eu sei como é
Eu sei como é
Ficar de fora quando todos os seus amigos veem o suicídio
Como uma coisa nova
E eu sei como é
Quando seu Wanksock é encontrado


Eu sei como é
E eu sei que é quase um crime
Mas o que me faz tentar novamente
É suportar a ideia de você não está comigo


Eu sei como é
Sentir que alguém está te observando
Eu sei como é
Se virar e ver que eles estavam realmente estavam te observando


Sim, eu sei como é
E você sabe que eu estou marcado por
Lembranças dos velhos tempos
Que me fazem ser quem eu nunca quis ser


Sim, eu sei como é
Ser escolhido por último no futebol, por esse pessoal de merda
E eu sei como é
A dor de um fim de namoro
E eu tenho sido conhecido a dizer
Que o mundo é uma dança de cadeiras


Katie, Don't Be Depressed (Katie, não fique deprimida)
Katie, não fique deprimida
Katie, não fique deprimida
Sério, quero dizer, mas o quê?
Katie, não fique deprimida

Talvez isso pode entrar no seu mundo
Antes que você possa ver a luz do dia
E você vai aprender a dizer:
"As coisas vão ficar bem"

Katie, não fique deprimida
Katie, não fique deprimida
Sério, quero dizer, mas o quê?
Katie, não fique deprimida

Um pensamento é lançado direto na sua mente
E você só quer fugir e gritar
Apesar de ser detido pela mão
Apesar de ser jogado ao chão

Katie, não fique deprimida
Katie, não fique deprimida
Sério, quero dizer, mas o quê?
Katie, não fique deprimida



Mecânica Celeste Aplicada (Luana)
O Sol vê tudo
Mas não conhece o amor
De uma garota
Que tem o dom de deslocar assim
A lua de Netuno no ar

E quando a noite vem
E traz consigo a dor
O sol se apaga
E só um sonho a faz lembrar que
A noite sempre vai ter fim

E eu aposto que ele nem sabe
Onde fica Erechim
E não sabe o que é
Sofrer de amor

Mas se é assim
Ele está condenado a vagar
Por lugares sem luar
Sem luar

Se essa cidade
Te faz querer voltar
E se é saudade
O que te leva para lá
É só sonhar que está em seu lugar

A pior coisa
Que Platão já inventou
Foi o amor
Que só traz solidão

Mas ela vai reencontrar
O chimarrão e a amizade
Num solstício de verão
De verão
De verão



Suicide Song (Música de Suicídio)
Volto aos seus braços
Porque simplesmente não consigo ser nada fora deles
Programado apenas para rebobinar
De volta para o tempo que eu tinha um futuro que podia ver


Agora acho que os dias deslizam pela solidão
Agora eu vejo que não ajuda compreender
Como minha dor se tornou do tamanho do mundo
Como eu percebi
Que estou perdendo meus amigos


Tente ver através desses poemas de merda
E veja o que restou
Veja, estou triste porque estou sozinho neste mundo e
Escrever parece não ajudar mais


Agora ela se foi, como todos que eu já conheci
Agora o meu suicídio é iluminado pelo pôr do sol
É muito triste, se você me perguntar
Pois eu acho que não estarei
Por perto para ver o seu rosto novamente





Algumas letras são meio sem sentido... requer muita interpretação e leitura, pois a maioria tem metáforas. Inclusive, deixei alguns links redirecionados à palavras e termos desconhecidas/os e seus significados.
Enfim, são estas as minhas músicas preferidas do Yoñlu ^-^ <3
Vocês pode também ouvir o álbum completo aqui.

11/08/15 - 20:10

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Minha ''pesquisa'' sobre o suicídio de Yoñlu + comentários

Há dias, li uma matéria na revista Época, de 2008 a respeito do suicídio do Vinicius. Admito que fiquei impressionada com as coisas que vi. Foi a primeira redação que explicou totalmente e com palavras simples, detalhadas e sem enrolação. Eu já sabia bastante da história dele, havia inclusive lido ela aqui. 
As vezes me pergunto se tô ficando paranoica e obcecada por esse garoto, pelo fato de meu interesse em sua história ser muito grande, mas eu me sinto tão ligada emocionalmente que não consigo parar... Resolvi citar alguns trechos da matéria nessa postagem, incluindo o comentário de um anônimo do fórum Darkside que encontrei ontem (09/08), que me deixou muito pensativa sobre esse comovente caso.

 "Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios.’’ 



''No mundo virtual não há nenhuma perversão nova, apenas as velhas modalidades que já assombravam as ruas da realidade. A diferença é que, na internet, qualquer um pode exercer seu sadismo protegido pelo anonimato, na certeza da impunidade. Basicamente, a ideia é: “Se ninguém sabe quem eu sou, não só posso ser qualquer um, como posso fazer qualquer coisa”. 
O brasileiro Vinícius Gageiro Marques deixou o inventário de seu suicídio. Documentou sua morte na carta de despedida impressa em papel e no registro virtual da internet. Seguindo seus passos, é possível chegar ao impasse de uma época em que adolescentes habitam dois mundos – mas os pais só os alcançam em um.
Como Yoñlu, ele marcou seu suicídio no mundo virtual para as 11 horas de 26 de julho de 2006. No mundo real, Vinícius estava havia dois meses em internação domiciliar por determinação de seu psicanalista. Ele era um garoto superdotado, descrito como “extraordinariamente inteligente” e “extremamente sensível”. Filho único do casamento de um professor universitário que foi secretário de Cultura do Rio Grande do Sul com uma psicanalista, ele teve todo o estímulo para desenvolver inteligência e sensibilidade. Mas o mundo doía em Yoñlu, como mostram as letras de muitas de suas músicas. Sua questão não era morrer, mas fazer a dor parar.''


Alguns trechos da entrevista do psicanalista de Vinicius, Mário Corso à revista Época:
''ÉPOCA – Na carta que deixou aos pais, Vinícius escreveu que você poderia ajudá-los a entender as razões do suicídio. Por que ele se suicidou?
Corso –
Esse menino estava numa crise prolongada de angústia. Não foi a primeira tentativa de suicídio dele. Ele já havia tido crises anteriores que conseguiu contornar. Uma vez ele se sentou na beira da cobertura e me ligou. A gente ficou falando um bocado de tempo sobre se valia a pena pular ou não. E ele não pulou. Ele precisava ouvir a voz de alguém que o lembrasse da sua ligação com a vida, dos laços que tinha com os que o rodeavam. Não havia uma outra voz dizendo para ele pular. E acredito que isso fez toda a diferença. 
  

ÉPOCA – Por que ele se suicidou de uma forma “assistida”? Ele chegou inclusive a botar uma foto das churrasqueiras com fogo na internet. O que significou esse suicídio ao vivo pela internet?
Corso –
Ele é de uma geração que se criou dentro da internet. Essa é a questão que foi subestimada por mim – e eu não posso falar por eles, mas talvez tenha sido subestimada pelos pais também. Com 11 anos ele freqüentava grupos de discussão onde se apresentava tendo 26. E ele passava por 26 anos. Esse menino era superdotado, extraordinariamente inteligente, e cresceu numa família muito estimuladora, intelectualmente rica, com um pai e uma mãe muito cultos. Ele sugou essa cultura rapidamente. O Vinícius herdou do pai a profundidade política, social, e da mãe a perspicácia emocional. Tinha o que poderíamos chamar de excesso de lucidez. Mas sem condições de suportar essa carga por causa da pouca idade. Era um menino que tinha uma capacidade de compreender profundamente o mundo, mas não tinha a consistência emocional para dar conta do que via, do que decodificava. Reduzido a si mesmo, via-se deformado, feio, pequeno. Ele tinha uma hipersensibilidade ao mundo que lhe fazia bastante mal. Como se ele vivesse um pouco o noticiário, o mundo como ele acontece. Era uma caixa de ressonância do mundo. 



ÉPOCA – Isso significa que ele era mais afetado pelas grandes tragédias do mundo ou pelas pequenas misérias ao seu redor?
Corso –
Ele sofria com a brutalidade do mundo. Este era um tema caro para ele: sofria vendo as pessoas sendo humilhadas, sofria com a hierarquia. Ele tinha uma compreensão hiperbólica do mundo. Era como se para ele a escravidão não tivesse acabado no Brasil. Ele ficava imaginando como era a vida da empregada, do porteiro. Ele fica tentando imaginar como essa vida era e como eles cabiam nessa vida que ele achava pequena e estreita. E como sofriam por isso.



ÉPOCA – Ao mesmo tempo, ele é descrito por algumas pessoas do colégio como alguém que não se relacionava muito com os outros, alguém que se dava bem com todo mundo e ao mesmo tempo com ninguém, que vivia numa espécie de mundo próprio.
Corso –
Houve várias fases dele. Ele teve dois tratamentos comigo. O primeiro foi iniciado quando ele tinha 11 anos. Ele me procurou por uma certa fragilidade que tinha. Já tinha esse desencaixe, essa precocidade extraordinária. É difícil viver numa sala de aula quando você entende muito o que está acontecendo. Imagina se você fosse adulta e tivesse de voltar para o primeiro ano. Aqueles empurrões e cotoveladas, aquelas maldadezinhas. Ele estava sempre um pouco à frente do seu tempo e isso fazia diferença para os colegas dele. Ele ficou comigo dos 11 aos 13 anos na primeira vez. Fez progressos muito importantes e saiu bem. Nessa época ele se aproximou muito do pai e ficou mais extrovertido. Melhorou também na sala de aula, ficou mais popular, ganhou até um apelido, Pipoca. Eu tinha notícias esparsas dele e ele estava bem. Em 2004 foi um período ótimo, em 2005 não foi tão bom e ele retornou. 



ÉPOCA – Desde quando você sabia que havia risco de suicídio e que tipo de providência foi tomada?
Corso –
Eu soube desde o começo. Ele disse na primeira vez que me procurou que havia pensado em se matar. Isso no segundo tratamento. Eu mantive isso comigo até sentir que a situação poderia escapar das minhas mãos. Então eu comuniquei aos pais. E nós combinamos que ele ficaria em internação domiciliar. Nesses casos sempre há alguém com o paciente, ele não fica sozinho em momento algum. Os pais já tinham desconfiança sobre isso, entenderam logo e passaram a não desgrudar dele. Mas enquanto a gente cuidava dele, tinha alguém que puxava ele para baixo. Aí entrou o fator extra, que nós desconhecíamos. Não sabíamos que ele tinha alguém que o incentivava a achar que a vida não vale a pena. Ele havia me dito que entrava na internet para ver formas de suicídio, a gente discutiu muito sobre os suicídios que estavam ocorrendo no Japão. Mas eu não sabia que ele discutia abertamente o valor da sua própria vida na internet. 



ÉPOCA – Ele era depressivo? Usava algum tipo de medicação?
Corso –
Não usava. E eu não vejo razão para classificações aqui. Isso não é relevante para essa discussão ou para o público que está lendo a revista. 



ÉPOCA – Por que ele dizia que queria se matar?
Corso –
Ele não falava que queria se matar. Ele falava que era impossível viver, que não se sentia com forças para viver, o que é um pouco diferente de ter vontade de morrer. Ele tinha uma vontade de desaparecer, de que algo cessasse a dor constante que ele sentia. 



Época - Há quanto tempo ele estava nessa internação domiciliar?
Corso –
Começou dois meses antes do suicídio. 



ÉPOCA – Vocês sabiam que havia risco de suicídio, você e a família estavam cuidando dele, mas ao mesmo tempo havia um outro enredo se desenrolando a partir da internet, dentro de um mundo virtual. Como é isso?
Corso –
Este foi o erro, o engano. Subestimar o papel da internet. Eu uso a internet, mas eu não a habito, eu não moro dentro da internet. Tem gente que mora. 



ÉPOCA – Ele morava dentro da internet?
Corso –
Ele habitava nela. Não vamos achar que a internet é uma coisa ruim a priori. Ele construiu a obra dele na internet, a troca de músicas que resultou no disco interessante que ele fez foi graças à internet. A internet pode ser extraordinariamente interessante, ela possibilita encontros que não estavam colocados antes. É o paraíso dos solitários, das pessoas tímidas. Tem proporcionado a construção de laços entre pessoas distantes. Agora, por outro lado, a internet possibilita também o contato de outro tipo de coisa que nunca aconteceria sem ela. A internet não criou nenhum tipo de doença mental, todas elas pré-existiam. Mas ela possibilita o incremento de certas morbidades por uma possibilidade de compartilhar e, a partir disso, criar uma identidade. Um exemplo é o que acontece com a anorexia, uma doença gravíssima, muitas meninas morrem disso. Antes da internet, uma não encontrava a outra. Com a internet o que elas conseguem? Trocam idéias sobre a anorexia não no sentido da auto-ajuda, mas da manutenção da patologia. E da glamourização dela. Encontram alguém que as apóia em permanecer nessa atitude doentia, a construir uma identidade a partir dela. Outro exemplo: imagina um sujeito pedófilo numa cidadezinha no interior onde provavelmente ele era o único pedófilo. Antes ele era uma aberração aos olhos da comunidade e dele mesmo. Na medida em que ele consegue compartilhar isso com outras pessoas na internet e descobre que há um monte de gente como ele, isso faz com que tenha coragem de se pensar enquanto grupo. Não como doente, mas como um estilo. A internet possibilita uma série de coisas extraordinárias, mas também uma série de coisas doentias. 


ÉPOCA – E o que podemos fazer? Nós vivemos numa espécie de esquina histórica. Os pais de hoje pertencem à geração que só conheceu a internet depois de adultos. Seus filhos habitam a internet desde a infância. Os pais vêem os filhos dentro do quarto, sentados, sozinhos, digitando no computador, e ficam tranqüilos porque não poderiam estar mais seguros: dentro de casa e sozinhos. Mas naquele momento os filhos estão no mundo, sujeito a pedófilos e perversos de todo o tipo, e sem pai nem mãe. Mesmo os pais que conhecem os riscos estão impotentes porque não dominam os códigos desse mundo virtual. Provavelmente quando essas crianças e adolescentes forem pais, esse gap geracional, pelo menos no sentido da internet, não vai mais existir. Mas hoje, agora, o que podemos fazer?
Corso –
Eu resolvi dar essa entrevista para que se comece uma discussão sobre isso. Não acredito em controle, acho que a internet é incontrolável. É algo como tentar proibir o papel. É inócuo, inútil, estúpido. Mas ela está aí e a gente vai ter de inventar formas para lidar com isso. Acho que o único jeito é a velha teoria de sempre. Se você quer cuidar de seus filhos, fique perto deles, tenha consciência do abismo que separa as gerações na forma de se relacionar com esse meio de comunicação. Procure dialogar com eles sobre o que ocorre também em seu mundo virtual. Para a nossa geração não está ocorrendo nada sério ali, mas para os mais jovens amores, destinos e até a vida e a morte podem estar sendo decididos na internet. Essa diferenciação entre o real e o virtual não é tão radical para eles. Há um portal em que eles transitam, lá onde nós somente vemos uma linha divisória, uma parede. É como a TV. A TV pode ser muito nefasta se ela for a única via de acesso ao conhecimento de uma criança. Mas se ela ficar diluída com a escola, com os pais, ela é um estímulo a mais. Quem vai ficar mais exposto à internet é quem tem menos laços reais com o mundo, quem constrói laços prioritariamente virtuais. O Vinícius estava num momento de muita fragilização com o mundo. Então ele se voltou para a internet. Embora ele também sofresse na internet, nos grupos de discussão. Não era uma vida fácil nem no mundo virtual. Mas a internet é um bom mundo para quem tem problemas com o corpo. O corpo não está ali, ali é só a palavra. Para quem é só corpo a internet não funciona. 



ÉPOCA – Ele deixou o CD como legado?
Corso –
Creio que esse mérito é dos pais dele. O CD não estava organizado. Eu mesmo tinha algumas músicas no meu computador. Foi o pai que organizou o CD e o fez com a ajuda de alguns amigos. Este CD é um re-encontro do pai dele com ele e acho bem corajoso o que ele está fazendo. A resposta mais comum nesses casos é a depressão e o apagamento, o esquecimento do filho. Eu vi tantos casos em que os filhos são cortados das fotos, como se nunca tivessem existido, como se estes pais nunca tivessem passado por isso. Acho que é uma atitude digna, corajosa, bem-vinda para o Vinícius, para os pais, para a música, para todo mundo.''


 Por fim, o comentário do user Conrado, no fórum:
''A maioria das pessoas só vê pequenas facetas, o suficiente pra conseguir viver adequadamente com os problemas que tem. Compreender o mundo além disso é um convite à depressão, pois se passa por muita coisa desagradável e "errada". Eu mesmo já passei (e ainda passo) por essa situação, mas ao invés de me fechar pra viver tranquilamente, eu procuro aumentar minha percepção pra compreender melhor os motivos das coisas serem como são. Se não fosse isso, eu provavelmente seria depressivo crônico. Ao que me pareceu, o Vinícius teve essa compreensão desde muito cedo e muito rápido, e ele não suportou conciliar isso com todas as agruras que já são garantidas da adolescência. Qual adolescente normal (tirando os que tiveram vidas "perfeitas", filhinhos de papai pegadores e etc) que nunca pensou em suicídio pelo menos uma vez? Pode ser bobagem adolescente, mas no caso dele acabou virando uma bola de neve. Acontece, infelizmente aconteceu, e no momento de fraqueza a única coisa que ele achava que tinha era um bando de FOREVER ALONE na internetz instigando, querendo fazer alguma coisa macabra acontecer a um mero desconhecido pra sua própria diversão doente. É isso que moveu o terapeuta dele a fazer essa entrevista. Se o Vinícius tivesse pelo menos entendido de fato que haviam pessoas que o amavam, que precisavam dele, que estariam ali com ele incondicionalmente, talvez ele pudesse suportar a dor a ponto de desenvolver uma mudança de perspectiva.''

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Depois de ver a opinião desse cara e a entrevista do psicanalista, pude deduzir que o Yoñlu não tinha coragem de se matar. Ele tinha vontade, mas capacidade pra isso, não. Ele sofria pelos cantos e expressava o que sentia através da música.
Talvez ele soubesse da sua incapacidade e estivesse apenas esperando uma razão verdadeira ou um estímulo pra fazer tal ato. E foi o que aconteceu: várias pessoas nesse mundinho secreto da Internet o incentivaram a cometer o suicídio... acredito que o Vinicius se deixou levar pelo momento, agiu sem pensar, por impulso, mas ele era frágil e ingênuo demais pra esse mundo tão cruel. Talvez nos últimos segundos ainda vivo, ele deva ter percebido que não era aquilo que ele queria, ou talvez ele tenha comemorado a sua grande conquista que foi o desejado fim de sua dor. Em sua carta de despedida, Vinícius escreveu: “Se conseguirem enxergar além da ótica da paternidade, verão que nada de especial aconteceu no dia de hoje. O mundo continua igual. (...) Espero que não tenha ficado nada pendente”. - na minha concepção ele quis dizer que se os pais enxergassem aquilo fora do ponto de vista paterno, perceberiam que a morte não é algo tão ruim e que é algo natural, pois acontece com todos. O mundo não para, é o ciclo da vida -
Mas, infelizmente, ele estava errado. Para algumas pessoas nada nunca mais será igual. Tudo ficou pendente.
10/08 - 19:40